A aliança histórica entre Estados Unidos e Marrocos e seu papel na crise de Ceuta
A longa história de cooperação entre Marrocos e Estados Unidos, marcada por laços diplomáticos e militares, é um fator chave para entender a reação americana à entrada de mais de 70 mil pessoas na cidade espanhola de Ceuta.

A relação entre Estados Unidos e Marrocos, que remonta a um tratado de 1786, influenciou a postura de Washington diante da recente crise migratória em Ceuta.
Desde um tratado do século 18 até o apoio à soberania sobre o Saara Ocidental, a relação especial entre os dois países se manifesta na recente crise migratória.
Uma aliança de longa data
Marrocos e Estados Unidos mantêm uma relação especial, evidenciada por um tratado de amizade do século 18 e gestos recentes, como a renomeação de uma rodovia no Saara Ocidental em homenagem ao ex-presidente Donald Trump. Este ato marroquino foi um aparente agradecimento pelo apoio de Trump à soberania de Rabat sobre o território disputado.
A solidez dessa aliança ficou clara após a recente crise migratória em Ceuta, quando mais de 70 mil pessoas entraram na cidade espanhola a partir do Marrocos. A reação do governo dos EUA ao incidente demonstrou sua proximidade com o reino alauíta, sem questionar a origem da onda migratória no Marrocos.
Washington descreveu o ocorrido como uma "catástrofe" e culpou as políticas migratórias do governo espanhol e as "políticas globalistas de extrema esquerda", gerando preocupação na Espanha, um país-membro da OTAN que abriga bases militares americanas.
As raízes históricas da cooperação
A relação entre os dois países começou em 1776, quando os EUA declararam independência. Em 1777, o sultão Mohammed 3º do Marrocos autorizou navios americanos a usar portos marroquinos, um ato que Rabat considera o primeiro reconhecimento internacional dos EUA. O Departamento de Estado dos EUA, no entanto, data o reconhecimento oficial em 23 de junho de 1786, com a assinatura do Tratado de Paz e Amizade em Marrakech.
Para a jovem república americana, o tratado foi crucial. Ele garantiu a navegação pacífica e o acesso a portos marroquinos, protegendo navios americanos de corsários e abrindo oportunidades comerciais. A localização estratégica do Marrocos, na entrada do Mediterrâneo, beneficiou os EUA em sua busca por reconhecimento e comércio global.
O tratado foi renegociado em 1836 e permanece em vigor, sendo o acordo mais antigo da história dos EUA. Embora a relação não tenha sido sempre de proximidade constante, especialmente durante o período colonial marroquino, os EUA reconheceram imediatamente a independência do Marrocos em 1956, abrindo sua embaixada em Rabat.
Segurança e interesses estratégicos
A cooperação em segurança entre EUA e Marrocos precede a independência marroquina, com acordos para uso de instalações aéreas desde 1950. Em 1975, os EUA apoiaram o Marrocos na questão do Saara Ocidental, com documentos diplomáticos revelando uma postura favorável a Rabat, apesar da neutralidade pública.


