Participação feminina na direção de filmes permanece abaixo de 20%
Dados do Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro de 2024 revelam que mulheres são minoria na direção e roteiro, enquanto são maioria em áreas como direção de arte e produção executiva. Especialistas defendem políticas públicas para mudar esse cenário.

A participação feminina em cargos de direção no cinema e audiovisual brasileiro não ultrapassa 20%, apesar de as mulheres serem maioria na formação e atraírem grandes públicos.
Produtora Minom Pinho defende políticas públicas para aumentar a representatividade feminina no setor audiovisual brasileiro.
A disparidade na liderança audiovisual
Apesar de as mulheres constituírem a maioria entre os estudantes que se formam em cursos audiovisuais, sua representação em cargos de liderança nas produções cinematográficas brasileiras permanece notavelmente baixa. Minom Pinho, produtora de cinema e audiovisual, diretora da Associação Paulista de Cineastas (Apaci) e coordenadora do Festival Internacional de Mulheres no Cinema (FIM Cine), defende que essa realidade só poderá ser alterada por meio de políticas públicas eficazes. Ela enfatiza a urgência de estabelecer metas claras e indicadores, como a estipulação de uma porcentagem mínima de mulheres em roteiro e direção de longas-metragens, sugerindo 30% até 2030, para superar a "zona de resistência" do cinema.
Em entrevista concedida à Agência Brasil durante o festival Bonito CineSur, Minom Pinho destacou que, há anos, a participação de mulheres em posições de liderança no cinema e no audiovisual brasileiro não consegue ultrapassar a marca de 20%. Este cenário persiste mesmo com as mulheres apresentando uma formação acadêmica superior à dos homens na área e demonstrando capacidade de atrair grandes públicos às salas de cinema. A produtora argumenta que a competência feminina não pode ser questionada, visto que, com apenas 20% dos cargos de liderança, elas são responsáveis por 44% do mercado, evidenciando um desempenho notável em condições desfavoráveis.
Dados do anuário revelam a lacuna
O Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro de 2024, uma publicação do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA) e da Agência Nacional de Cinema (Ancine), oferece dados concretos que corroboram a disparidade de gênero no setor. Os números mostram que, embora as mulheres sejam maioria nas atividades de exibição (58%) e distribuição (54%), sua representação na direção de séries e filmes brasileiros é significativamente menor, atingindo apenas 17%.
A análise do anuário para o ano de 2023 revela que 231 longas-metragens brasileiros foram dirigidos exclusivamente por homens, enquanto apenas 52 tiveram direção feminina. A situação é similar no campo dos roteiros, com 165 obras escritas por homens contra 41 por mulheres. Em contraste, as mulheres predominam em áreas como direção de arte (99 contra 57) e produção executiva (110 contra 66), o que Minom Pinho descreve como um reflexo de estereótipos sociais sobre o "lugar" da mulher no cinema, como a ideia de que "arte é coisa de mulher".


