Rússia envia soldados feridos de volta à linha de frente na Ucrânia
A BBC News Rússia obteve documentos que detalham como militares lesionados, alguns com ferimentos graves, são forçados a retornar à linha de frente, contornando os procedimentos legais de dispensa.

Soldados russos feridos na Ucrânia, incluindo ex-detentos, são enviados de volta ao combate sem as avaliações médicas previstas em lei, conforme documentos judiciais.
Documentos judiciais revelam que militares russos ignoram avaliações médicas obrigatórias para combatentes lesionados, incluindo ex-prisioneiros.
O caso de Oleg Shikin e o retorno ao front
Oleg Shikin, um ex-detento que se alistou em troca de liberdade, sofreu ferimentos graves após pisar em uma mina terrestre na Ucrânia. Ele teve estilhaços no crânio, queimaduras no rosto e na mão, e lesões no olho esquerdo, peito, braços e pernas, necessitando da remoção cirúrgica de parte do crânio. Após o tratamento inicial, Shikin foi recomendado para uma nova avaliação médica militar após um mês de licença.
Contrariando a recomendação, Shikin foi enviado de volta à linha de frente com uma placa de titânio na cabeça. Seu caso é um exemplo das dezenas reveladas pela BBC News Rússia, que apontam para uma prática recorrente de comandantes russos de enviar soldados feridos de volta ao combate sem as avaliações médicas exigidas por lei. Shikin contestou a decisão judicialmente, e o Tribunal Militar da Guarnição de Nijni Novgorod ordenou que seu comandante garantisse a avaliação. No entanto, o desfecho de seu caso permanece desconhecido.
Violações da lei militar e avaliações médicas
A lei russa sobre o Dever e o Serviço Militar estabelece que duas categorias de aptidão, "inapto" e "parcialmente apto", podem levar à dispensa antecipada do serviço. A determinação dessas condições deve ser feita por uma junta médica militar completa, composta por diversos especialistas como clínico-geral, cirurgião, neurologista, psiquiatra, oftalmologista, otorrinolaringologista e dentista.
Documentos judiciais mostram que essa exigência tem sido frequentemente ignorada. Soldados como Rustam Farzaliyev, considerado "parcialmente apto" devido a uma "doença socialmente relevante", foram impedidos de deixar as Forças Armadas. Vitaly Kamenyuk, outro ex-detento, alegou ter sido considerado apto com base apenas no parecer de um neurologista, apesar de um atestado médico original reconhecer uma "lesão grave".
Impacto em ex-detentos e reservistas
Sergei Krivenko, diretor do grupo de direitos humanos Citizen Army Law, afirma que muitos ex-detentos ficam "presos" às Forças Armadas, sendo "cinicamente descartados" na guerra. Além dos ex-prisioneiros, voluntários comuns com condições de saúde sérias, como perda de dedos, HIV, tuberculose, câncer ou transtornos mentais, foram dispensados por serem considerados "parcialmente aptos", indicando uma disparidade no tratamento.


