Sem luz, água nem transporte: as frustrações da minha vida em Cuba e seus apagões
A pior crise energética de Cuba nas últimas décadas transforma a vida de um jovem profissional: apagões de 16 horas, transporte precário, água racionada e uma rotina de frustração e incerteza.

Gustavo, 25, enfrenta apagões de até 16 horas por dia, falta de transporte público e semanas sem água em Havana, enquanto o sistema elétrico cubano colapsa repetidamente.
Jovem historiador de arte de Havana relata como a crise energética reconfigurou sua rotina, do deslocamento ao trabalho à falta de água e à insegurança nas ruas escuras.
A odisseia para ir ao trabalho
Gustavo, de 25 anos, mora na zona leste de Havana e trabalha no centro, separados pela baía. Para atravessar o túnel submarino, ele depende de transporte motorizado, mas o sistema de ônibus praticamente parou. O ciclobus, que faz o trajeto curto, começou a falhar após o bloqueio energético imposto pelos EUA em janeiro.
Quando o ciclobus não opera, Gustavo não vai trabalhar, pois pagar um táxi custaria um terço de seu salário mensal. Ele recorre a carros particulares que vendem lugares em rotas fixas, por cerca de 800 pesos cubanos (US$ 33), o equivalente a 25% do salário mínimo local. No caminho, ele caminha longas distâncias sob o sol, e brinca que já poderia ser maratonista.
A falta de transporte também limita sua vida social: ele não sai à noite há anos, pois voltar para casa é caro e difícil sem ônibus. "Não vou dançar em uma discoteca ou beber em um bar há anos", diz.
Havana coberta de lixo e sem água
A escassez de combustível paralisou também os caminhões de lixo. "Havana está totalmente coberta de lixo", afirma Gustavo. "Em todas as esquinas, há um lixão. Alguns ocupam a rua inteira." No bairro dele, o caminhão não passa mais; em Havana Velha, a coleta ocorre talvez uma vez por mês.
Moradores queimam o lixo para se livrar dele, o que provoca incêndios involuntários em latões e paredes de prédios. No fim de 2025, a falta de coleta contribuiu para uma epidemia de doenças transmitidas por mosquitos.
A água também falta. Sem eletricidade, os motores que bombeiam água param, e as tubulações antigas se rompem com frequência. Gustavo e a família armazenam água em tanques e 20 baldes, mas os estoques se esgotam com o tempo, forçando escolhas de prioridade.
A escuridão e o medo
Os apagões, chamados de 'alumbrones', são longos e irregulares. "O normal é ficar sem eletricidade; o incomum é que ela venha", diz Gustavo. Quando a luz volta, mesmo de madrugada, vizinhos correm para ligar máquinas de lavar, sem saber quando poderão usá-las de novo. Alimentos refrigerados estragam, e o sinal de celular e a internet somem.


