Sistema elétrico brasileiro enfrenta risco de excesso de geração de energia
O Brasil, que já enfrentou apagões por falta de energia, agora lida com o desafio oposto: um volume excessivo de eletricidade na rede. A expansão da geração solar distribuída e a ausência de políticas públicas adequadas são apontadas como causas do desequilíbrio, levando a cortes na produção e prejuízos.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou um plano emergencial em junho para reduzir a geração de energia, pela primeira vez, devido ao excesso de oferta no sistema.
Avanço da geração solar distribuída e falta de investimentos em infraestrutura causam desequilíbrio entre oferta e demanda.
O dilema do excesso de energia no Brasil
O sistema elétrico brasileiro, que em 2001 enfrentou um apagão por excesso de demanda, agora lida com o desafio oposto: a ameaça de oferta excessiva de energia. Para evitar uma sobrecarga, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) implementou em 7 de junho um plano emergencial para reduzir o ingresso de eletricidade na rede. Esta medida, conhecida como "curtailment", envolve a redução ou desligamento da geração, principalmente de parques eólicos e solares.
Foi a primeira vez que o ONS utilizou essa medida desde a aprovação de um plano para lidar com o excesso de oferta em novembro do ano passado. A ação foi necessária para equilibrar a alta geração com um consumo menor, influenciado por um feriado prolongado e baixas temperaturas. Cortes semelhantes também ocorreram em dias de jogos da Copa do Mundo. Para o funcionamento adequado do sistema, a oferta e a demanda de energia devem ser equivalentes.
O papel da geração distribuída e seus desafios
Diferentemente do passado, o país não depende apenas de grandes usinas controladas pelo ONS. A geração distribuída, principalmente por painéis solares em residências e comércios, cresceu significativamente. Cerca de 4,5 milhões de consumidores (5% do total) são micro e minigeradores, com uma potência instalada de 50 gigawatts, equivalente a 20% da potência total do país.
A pesquisadora Joisa Dutra, da FGV-Ceri, alerta que esse volume é expressivo e pode estar subestimado, com uma possível subnotificação de até 15 gigawatts. A geração distribuída não é controlada centralizadamente pelo ONS, e seu desligamento depende das concessionárias. Se o ONS apenas desligar os recursos sob seu controle, a redução pode não ser suficiente para compensar a diminuição do consumo.
Causas do desequilíbrio e visões divergentes
A presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoum, diferencia a energia eólica e solar de grande porte da geração solar distribuída, ou "energia de telhado", que não é controlada pelo ONS. Ela aponta que o excesso de investimento na geração distribuída contribui para o problema, causando prejuízos aos investidores do setor devido ao "curtailment".


