Brasil enfrenta crises diplomáticas com EUA e Argentina às vésperas das eleições
As recentes tensões diplomáticas entre Brasil, Estados Unidos e Argentina, envolvendo a revogação de visto e críticas mútuas, são analisadas por especialistas quanto ao seu potencial impacto nas próximas eleições brasileiras.

A revogação do visto da embaixadora brasileira nos EUA e as críticas de Javier Milei ao Brasil geram crises diplomáticas a dois meses das eleições.
Analistas avaliam o impacto das tensões com Donald Trump e Javier Milei na campanha de Lula e Flávio Bolsonaro.
Crises diplomáticas em destaque
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta duas frentes de crise diplomática a dois meses das eleições de outubro. Uma delas é com os Estados Unidos, que revogaram o visto da embaixadora do Brasil no país, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Essa ação se soma a outras tensões anteriores, como a imposição de tarifas e a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas pelo governo de Donald Trump.
A outra crise envolve a Argentina, com a qual as relações diplomáticas foram rebaixadas após críticas do presidente Javier Milei ao presidente Lula e a instituições brasileiras. Milei, que participou do lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro, chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de "lixo careca" e, posteriormente, Lula de "ladrão" e "corrupto".
Em resposta às ações dos EUA, o Itamaraty recusou pedidos de visto para funcionários do Departamento de Estado e acusou Washington de tentar interferir nas eleições brasileiras. O governo brasileiro também afirmou que os EUA romperam a praxe diplomática ao anunciar publicamente um indicado para a embaixada em Brasília antes da solicitação formal do agrément. Lula classificou a revogação do visto da embaixadora como uma atitude "irresponsável" e "impensada".
Impacto eleitoral para Lula
Analistas políticos avaliam que as crises diplomáticas podem gerar um ônus para o governo Lula. O cientista político Hilton Fernandes, da FESPSP, sugere que as situações negativas na relação Brasil-EUA podem forçar o governo a se defender, alimentando o discurso da oposição de que seria um governo "radical, antiamericano, comunista".
A pesquisadora Mayra Goulart, da UFRJ, aponta que o discurso de "soberania nacional", utilizado em crises anteriores com os EUA, tornou-se polarizado e menos eficaz. No entanto, ela sugere que o governo pode explorar a questão da "dignidade diplomática" em relação à retirada do visto da embaixadora, por não envolver repercussões econômicas diretas e focar na "humilhação simbólica do Estado".
Pesquisas recentes indicam uma mudança na percepção pública. A avaliação positiva da resposta de Lula à guerra comercial de Trump diminuiu de 39% em maio para 38% em agosto, enquanto a avaliação negativa subiu de 36% para 43%. Isso resultou em um saldo negativo de -5 pontos percentuais para o governo, após um saldo positivo de +3.


