Mãe Menininha do Gantois: a ialorixá que influenciou a sociedade brasileira
Mãe Menininha do Gantois, falecida há 40 anos, foi uma figura de grande influência na sociedade baiana do século 20. Sua atuação foi crucial para a inserção e aceitação do candomblé no Brasil, enfrentando preconceitos e articulando alianças com políticos e artistas.

Maria Escolástica da Conceição Nazaré, Mãe Menininha do Gantois, foi uma ialorixá que, por 64 anos, liderou o terreiro do Gantois e se tornou uma voz de consenso na Bahia.
Conhecida como uma das maiores mães de santo do Brasil, ela foi figura central na aceitação do candomblé e conselheira de personalidades.
Uma figura de respeito e influência
Em 10 de fevereiro de 1984, personalidades como Antônio Carlos Magalhães, Dorival Caymmi, Caetano Veloso e Jorge Amado se reuniram em Salvador para celebrar o aniversário de 90 anos de Maria Escolástica da Conceição Nazaré, mais conhecida como Mãe Menininha do Gantois (1894-1986). A ialorixá, que faleceu há 40 anos nesta quinta-feira (13/8), conquistou respeito e influência na sociedade baiana do século 20.
Mãe Menininha era considerada uma voz de consenso, ouvida por muitos para direcionar questões importantes, conforme contextualiza o sociólogo e babalorixá Rodney William Eugênio. Ela foi a terceira ialorixá do Gantois, posto que ocupou por 64 anos, um recorde, sucedendo sua tia-avó em 1922, aos 28 anos. Sua família, descendente de escravizados da Nigéria, fundou o terreiro em 1849.
Luta e estratégia pela aceitação do candomblé
Ao assumir a liderança do terreiro, Mãe Menininha enfrentou um cenário de preconceito e discriminação contra as religiões de matriz africana. Ela utilizou a estratégia de se declarar católica, frequentando missas e sendo devota de Santa Escolástica, para garantir a sobrevivência do candomblé em um período de perseguição.
Sua atuação foi pioneira ao assegurar o direito de praticantes do candomblé participarem de celebrações católicas vestindo seus trajes típicos. Com o tempo, Mãe Menininha adquiriu um peso sociopolítico significativo, sendo procurada por autoridades, artistas e esportistas, como Pelé, Gilberto Gil e diversos presidentes, em busca de conselhos e proteção.
A "Lei de Jogos e Costumes" de 1930, que enquadrava práticas religiosas africanas, foi um grande desafio, resultando em batidas policiais e apreensões em terreiros. A situação só melhorou em 1976, quando o governador baiano Roberto Santos sancionou um decreto que liberou as casas de candomblé da necessidade de seguir o licenciamento de "jogos, costumes e diversões públicas", um resultado da pressão exercida pelo Gantois.
O papel das mulheres e o legado cultural
O sucesso de Mãe Menininha à frente do terreiro ilustra a proeminência de mulheres em papéis de comando nas religiões de matriz africana no Brasil. Segundo o sociólogo Eugênio, essa característica, comum na diáspora, está ligada ao processo de escravidão, onde mulheres frequentemente tinham outras atividades profissionais, como quituteira e costureira, o que lhes conferia autonomia e condições para o serviço religioso.


