O mistério da autoria de 'A Odisseia': Homero existiu?
A figura de Homero, o poeta cego responsável por 'A Ilíada' e 'A Odisseia', é cada vez mais vista por especialistas como uma personificação de um trabalho coletivo de gerações de poetas e editores que fixaram tradições orais em texto escrito.

Estudos recentes reforçam a hipótese de que as epopeias 'A Ilíada' e 'A Odisseia', tradicionalmente atribuídas a Homero, resultaram de uma longa tradição oral e compilação coletiva.
Pesquisadores contemporâneos questionam a existência de um único autor para as epopeias gregas, sugerindo um processo coletivo e oral.
A figura de Homero sob nova perspectiva
Tradicionalmente, Homero é reconhecido como o poeta cego que viveu por volta de 900 anos antes da Era Comum e escreveu as epopeias 'A Ilíada' e 'A Odisseia'. Contudo, um número crescente de pesquisadores contemporâneos questiona essa visão, sugerindo que Homero, como autor individual dessas obras basilares, pode nunca ter existido.
Especialistas como o historiador André Leonardo Chevitarese, da UFRJ, afirmam que não há provas da existência de um único autor chamado Homero para esses clássicos. Acredita-se que o nome seja uma personificação de um coletivo de poetas e editores que, ao longo de gerações, compilaram e fixaram em texto escrito as tradições orais. Daniel Brasil Justi, professor da Unifesspa e UFRJ, destaca que há um consenso no século 21 para se referir a 'Homeros' no plural, indicando uma 'tradição de autores'.
O debate histórico e a crítica filológica
A questão da autoria de Homero não é recente. O filósofo Gabriele Cornelli, da UnB, lembra que Friedrich Nietzsche abordou o tema em sua primeira aula na Universidade da Basileia, tratando Homero como um autor estético, não necessariamente histórico. Na Grécia Antiga, já no século 5º a.C., estudantes notavam discrepâncias de estilo nos textos atribuídos a Homero, levantando dúvidas sobre sua autenticidade.
O questionamento ganhou força no final do século 18 com o filólogo Friedrich August Wolf. Ele considerou impossível que um único autor tivesse escrito 'A Ilíada' e 'A Odisseia' devido à sua extensão e à impossibilidade de serem compostas e preservadas por escrito na época. Wolf concluiu que as epopeias seriam resultado de uma longa transmissão oral, reunidas e fixadas posteriormente.
Essa perspectiva de Wolf foi crucial, deslocando o foco para a originalidade de Homero como autor ou compilador de tradições orais. O filósofo Dennys Garcia Xavier, da UFU, explica que Wolf não visava negar a existência de Homero, mas sim a concepção de um único poeta escrevendo as obras de uma só vez.
A origem oral e a compilação coletiva
A tradição grega antiga incluía os aedos, poetas cantores que se apresentavam publicamente, transmitindo histórias de vilarejo em vilarejo. É provável que as narrativas homéricas circulassem dessa forma, por tradição oral. Com o tempo, grupos de escribas teriam compilado essas histórias, em um processo coletivo que se estendeu por gerações, com revisões, edições e acréscimos.


