Sete dos dez agrotóxicos mais vendidos no Brasil são proibidos na UE
Uma pesquisa revela que o Brasil é um dos principais destinos para agrotóxicos banidos na União Europeia, configurando um "colonialismo químico". A geógrafa Larissa Mies Bombardi destaca os impactos desses produtos na saúde humana, animal e no meio ambiente, além de criticar a concentração do mercado de insumos agrícolas.

Sete dos dez agrotóxicos mais comercializados no Brasil em 2023 são substâncias proibidas na União Europeia, segundo estudo apresentado em conferência científica.
Pesquisadora aponta que o país sofre "colonialismo químico"
Agrotóxicos proibidos na Europa e o "colonialismo químico"
Sete dos dez agrotóxicos mais vendidos no Brasil em 2023 são substâncias cujo uso é proibido na União Europeia (UE). Essa constatação, apresentada pela geógrafa Larissa Mies Bombardi, pesquisadora do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD) na França, caracteriza o que ela denomina "colonialismo químico". Segundo a pesquisadora, empresas europeias exportam para o Brasil produtos que não podem ser utilizados em seus próprios territórios.
A proibição desses agrotóxicos na UE se deve a riscos como potencial cancerígeno, capacidade de provocar malformações fetais, distúrbios hormonais ou severos impactos ambientais. Entre os dez agrotóxicos mais utilizados no Brasil em 2023, a lista inclui Mancozebe, 2,4-D, Acefato, Clorotalonil, Atrazina, S-metolacloro e Dibrometo de Diquate como os proibidos na UE.
Impactos ambientais e na saúde
Os agrotóxicos, utilizados para proteger plantações contra pragas e doenças, geram impactos nocivos ao ambiente e à saúde humana e animal. Larissa Bombardi citou dados do estudo "Atlas dos Pesticidas 2022", da Heinrich-Böll-Stiftung, que indicam um declínio de 41% no número de insetos globalmente entre 2009 e 2019, com borboletas registrando queda de 53%. A pesquisadora explica que essas substâncias afetam a biodiversidade, justificando a proibição na Europa.
Um exemplo específico é o herbicida atrazina, o sexto mais vendido no Brasil, que pode causar anomalias em anfíbios, como a mudança de sexo em sapos. Tais alterações podem levar à eliminação de fêmeas em uma espécie, com consequências significativas para o ecossistema.
Brasil como destino e concentração de mercado
O Brasil é o principal destino global para a exportação de pesticidas proibidos na UE, recebendo 3 mil toneladas em 2023. Esse volume supera a soma das exportações para Ucrânia, Estados Unidos e Rússia, que totalizaram 2,6 mil toneladas. A pesquisadora critica a concentração do mercado de sementes e agrotóxicos, dominado por apenas quatro empresas: Basf, Bayer (ambas europeias), Corteva (americana) e Sinochem (chinesa).
Essas quatro corporações controlam 51% do mercado de sementes e 62% do de agrotóxicos, resultado de um histórico de fusões e aquisições. Bombardi compara essa dinâmica a um novo tipo de colonialismo, similar ao período da escravidão, onde empresas europeias comercializavam pessoas em territórios onde a escravização era impensável. Ela também relaciona o uso de agrotóxicos à questão fundiária no Brasil, onde grandes proprietários concentram a maior parte da terra.


