Amazônia tem mais de 2,7 mil espécies de peixes, aponta estudo
Quarta edição do relatório Peixes Esquecidos da Amazônia, da TNC, reúne dados de 50 especialistas e aponta rios como última grande fronteira para evitar perda de biodiversidade em larga escala.

A Bacia Amazônica concentra mais de 2,7 mil espécies de peixes de água doce, cerca de 15% do total mundial, e dois terços delas só existem ali.
Bacia abriga 15% de todas as espécies de água doce do mundo; dois terços são exclusivas da região
Riqueza e ameaças à biodiversidade
Apesar da grande diversidade, o estudo aponta lacunas no conhecimento sobre as espécies amazônicas. A Lista Vermelha da IUCN reúne 144 espécies ameaçadas na região, enquanto outras 334 estão classificadas como Dados Insuficientes. A falta de monitoramento e de colaboração entre os países da bacia pode fazer com que os riscos sejam maiores do que os conhecidos.
As ameaças atuam de forma combinada: hidrelétricas, desmatamento, poluição e pesca excessiva podem interromper a conectividade dos rios, fragmentar habitats e deteriorar a qualidade da água. As mudanças climáticas tendem a agravar o cenário, com projeções de redução de mais de 40% na descarga anual dos rios em regiões como as cabeceiras do Madeira.
O garimpo acrescenta outra pressão: a mineração não industrial de ouro responde por 83% das emissões de mercúrio causadas por atividades humanas na América do Sul. O contaminante se acumula na cadeia alimentar, e o consumo de pescado é a principal via de exposição humana ao mercúrio na Amazônia.
Peixes sustentam a floresta e comunidades
Os peixes são indicadores de uma Amazônia saudável e contribuem para o funcionamento da floresta. Tambaquis, pacus e matrinxãs, por exemplo, alimentam-se de frutos em áreas alagadas e dispersam sementes por grandes distâncias. Outras espécies transportam nutrientes entre ambientes aquáticos e terrestres.
A redução dessas populações pode provocar efeitos em cadeia sobre a vegetação e sobre animais que dependem dos peixes, como botos, ariranhas e aves. A dourada, uma das espécies analisadas, realiza a mais longa migração exclusivamente em água doce já registrada, percorrendo mais de 11 mil quilômetros entre os Andes e o estuário do Amazonas.
Em comunidades ribeirinhas remotas, o consumo de pescado ultrapassa 600 gramas por pessoa por dia. O peixe é uma das fontes de proteína animal mais acessíveis para famílias de baixa renda. Pelo menos 200 espécies são capturadas comercialmente, e a pesca ornamental exporta dezenas de milhões de exemplares por ano.
Conhecimento indígena e manejo comunitário
O estudo destaca o conhecimento de povos indígenas e comunidades tradicionais sobre os rios. Para a coordenadora-geral da COICA, Fany Kuiru Castro, os peixes fazem parte da identidade, dos sistemas alimentares e da relação dos povos indígenas com os rios vivos. Ela defende que estratégias de conservação reconheçam direitos territoriais e fortaleçam a liderança indígena.


