Aplicativos exploram "provas de masculinidade" de entregadores, aponta sociólogo
Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) indica que plataformas de entrega se beneficiam de uma cultura de "provas de masculinidade" entre jovens entregadores, que veem em manobras arriscadas uma forma de demonstrar coragem e agilidade, apesar dos perigos.

A pressão por entregas rápidas e a busca por autonomia levam jovens entregadores de aplicativos a assumir riscos no trânsito, segundo pesquisa da USP.
Pesquisa da USP revela como a pressão por velocidade e a busca por autonomia levam jovens a assumir riscos no trânsito.
A rotina dos entregadores e a expansão do setor
Matheus da Silva Pérez, de 22 anos, exemplifica a rotina de muitos entregadores de aplicativo em São Paulo, onde o som de notificações é constante. Ele começou a trabalhar com entregas para complementar a renda, mas logo percebeu que poderia se dedicar integralmente à atividade, atraído pela possibilidade de ganhar mais dinheiro do que em empregos tradicionais.
O trabalho por aplicativos tem crescido significativamente no Brasil, com 1,7 milhão de pessoas atuando nessa modalidade em 2024, um aumento de 25,4% em dois anos. Desse total, 485 mil são entregadores. A renda média desses trabalhadores é de R$ 2.996 para jornadas superiores a 40 horas semanais, valor inferior à média nacional de R$ 3.367 em 2025.
Apesar da autonomia percebida, como a flexibilidade de horários, Matheus relata que o desgaste mental supera o físico. Ele enfrenta estresse com estabelecimentos, pedestres e clientes, além de lidar com a infraestrutura urbana e a necessidade de pedalar intensamente, mesmo com bicicletas elétricas, para otimizar a bateria e o tempo.
Riscos no trânsito e a pressão do tempo
A rotina dos entregadores é marcada por riscos constantes. Matheus e seu amigo Pedro Ivo, de 18 anos, já sofreram acidentes no trânsito. Em um dos casos, Matheus foi atingido por um carro que saía de uma garagem, e Pedro foi vítima de um motorista que avançou o sinal vermelho. Colegas de trabalho frequentemente prestam os primeiros socorros.
A pressão por cumprir prazos leva muitos entregadores a desrespeitar regras de trânsito, como avançar sinais vermelhos ou andar na contramão. Pedro admite essa prática, justificando que "cada minuto conta" para maximizar o número de entregas. Essa busca por agilidade é incentivada pela lógica dos aplicativos, que recompensam quem entrega mais rápido.
Além dos riscos no trânsito, os entregadores enfrentam o "modo espera", um tempo não remunerado aguardando pedidos ou clientes. A espera obrigatória de 15 minutos por um cliente pode gerar atrasos significativos e, em casos de não comparecimento, o entregador precisa retornar ao estabelecimento para devolver os produtos, resultando em perda de tempo e dinheiro.


