Exames preventivos com inteligência artificial geram debate sobre benefícios e ansiedade
O mercado de exames preventivos de saúde com inteligência artificial cresceu exponencialmente nos últimos dois anos, atraindo investimentos e clientes dispostos a pagar caro. No entanto, especialistas questionam se esses procedimentos são realmente necessários para pessoas saudáveis e se não geram ansiedade desnecessária.

Com 100 mil pessoas em fila de espera, exames preventivos de corpo inteiro, que usam inteligência artificial, levantam questões sobre sua real eficácia e impacto na saúde mental.
Tecnologia de escaneamento corporal completo, com filas de espera de 100 mil pessoas, divide opiniões entre defensores da prevenção e médicos céticos.
A ascensão dos exames preventivos com inteligência artificial
A repórter da BBC News, Ruth Clegg, submeteu-se a um exame de corpo inteiro em uma clínica em Manchester, Inglaterra, utilizando um scanner que emprega inteligência artificial. O procedimento envolveu a captura de 2 mil fotografias da pele para detectar possíveis cânceres e a coleta de milhões de dados para criar um avatar 3D do corpo. Este tipo de exame visa identificar condições como câncer de pele, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, glaucoma e distúrbios renais e sanguíneos.
Nos últimos dois anos, o mercado de exames preventivos de saúde, que utilizam tecnologia de escaneamento corporal e inteligência artificial, registrou um crescimento exponencial. Empresas como Prenuvo, Ezra e Neko Health têm atraído milhões em investimentos de capital de risco. A Neko Health, por exemplo, oferece um exame por 299 libras (cerca de R$ 2 mil) e atualmente possui uma lista de espera de 100 mil pessoas.
Os defensores dessa tecnologia, como Hjalmar Nilsonne, cofundador da Neko Health, argumentam que a medicina primária ainda é muito básica e que a prevenção é mais eficaz do que esperar o surgimento dos sintomas. Ele expressa o desejo de que esses tratamentos preventivos se tornem acessíveis a todos, não apenas àqueles com capacidade financeira para pagá-los.
Ceticismo médico e o dilema do diagnóstico
Apesar do entusiasmo do setor, médicos de clínica geral e o Serviço Nacional de Saúde (NHS) britânico demonstram ceticismo em relação aos benefícios desses exames para pacientes saudáveis. O NHS alerta que a popularidade desses procedimentos pode levar a "diagnósticos excessivos, investigações desnecessárias e ansiedade evitável". A professora Victoria Tzortziou Brown, presidente do Royal College of General Practitioners (RCGP), afirma não haver "evidências convincentes" de que exames de rastreio privados em larga escala melhorem os resultados de saúde.
Um caso ilustrativo é o de Annabel Mason-Thompson, que realizou um exame na Neko Health para verificar uma marca suspeita nas costas. A tecnologia de IA não detectou nenhuma das quatro lesões cancerígenas que ela possuía. Somente após a intervenção de um médico humano, que examinou a marca vermelha, foi confirmado que era suspeita. Posteriormente, sua dermatologista encontrou mais três marcas cancerígenas que necessitavam de tratamento urgente.


