Feminicídios em alta no Brasil: falha estatal na proteção de mulheres
Em entrevista, Juliana Brandão, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, discute o recorde de feminicídios no país, a falha do Estado em prevenir esses crimes e a necessidade de políticas públicas mais eficazes, especialmente para mulheres negras.

O Brasil registrou 1.571 feminicídios em 2025, o maior número desde 2015, evidenciando a persistência da violência contra mulheres mesmo com a Lei Maria da Penha.
Juliana Brandão, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, analisa o aumento de feminicídios e a ineficácia na prevenção da violência de gênero.
A escalada da violência contra a mulher no Brasil
O Brasil registrou em 2025 o maior número de feminicídios desde que o crime foi tipificado em 2015, totalizando 1.571 vítimas. Este dado, presente no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, revela uma escalada da violência de gênero pelo quarto ano consecutivo, com a maioria dos assassinatos ocorrendo dentro do ambiente doméstico, entre quatro paredes.
Apesar de a Lei Maria da Penha completar 20 anos, a violência contra as mulheres permanece um desafio significativo para a segurança pública. Juliana Brandão, advogada e coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, destaca que o feminicídio é o ponto culminante de um ciclo de violência que se inicia com agressões menores, humilhações e violências psicológicas e patrimoniais, muitas vezes naturalizadas e desconsideradas.
O ciclo da violência e a falha na prevenção
Brandão explica que o feminicídio é o desfecho de um ciclo de violência que inclui empurrões, tapas, humilhações, violências psicológicas, patrimoniais e perseguições. Essas violências, frequentemente cometidas por pessoas do círculo íntimo da vítima e dentro de casa, levam a mulher a se sentir envergonhada ou culpada, dificultando a busca por ajuda.
A especialista aponta que a alta taxa de tentativas de feminicídio e de feminicídios consumados indica falhas na prevenção. O sistema penal atual foca na responsabilização do agressor, mas não restaura a vida da vítima nem os laços sociais dos órfãos e familiares indiretos. A ausência de saídas preventivas eficazes, segundo Brandão, equivale a consentir com a escalada da violência, jogando a responsabilidade da proteção no colo das próprias mulheres.
Sinais ignorados e a responsabilidade do Estado
A advogada ressalta que a violência deixa sinais claros no cotidiano das mulheres, que podem ser percebidos por sistemas de saúde, assistência social e pela comunidade. Relatos de impedimento de sair de casa, de usar redes sociais ou de procurar trabalho são alertas que, muitas vezes, são ignorados, mesmo quando a mulher já buscou ajuda.
Brandão critica a postura de esperar o "pior acontecer para agir", afirmando que o Estado e a sociedade estão hesitantes em abraçar um compromisso maior com estratégias de proteção e prevenção. Ela argumenta que as mulheres só parecem importar para o Estado quando registram um boletim de ocorrência de uma violência que já estão sofrendo, desconsiderando os preditores de feminicídio.


