Diretor da OMS acusa indústria de ultraprocessados de dificultar combate à obesidade
A declaração surge após uma investigação transnacional revelar que grandes empresas do setor movem ações judiciais para atrasar ou enfraquecer regulações de saúde pública, gerando bilhões em custos e impactando a saúde de populações de baixa renda.

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, acusa a indústria de alimentos ultraprocessados de tentar impedir o combate global à obesidade.
Tedros Adhanom Ghebreyesus afirma que 'Big Food' obstrui políticas de saúde pública e eleva custos governamentais.
Acusação da OMS e o papel da indústria
Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), fez uma grave acusação contra as grandes empresas do setor alimentício, conhecidas como 'Big Food'. Ele afirma que essas indústrias estão ativamente tentando dificultar os esforços globais para combater a obesidade e promover dietas mais saudáveis. Segundo Ghebreyesus, a tática envolve a obstrução de políticas de saúde pública, o que resulta em bilhões de dólares em custos adicionais para os cofres públicos das nações.
A declaração do diretor da OMS foi motivada pela publicação do especial 'O Povo contra as Big Food', uma investigação jornalística transnacional. Este trabalho, realizado pela Agência Pública em colaboração com veículos e universidades de nove países, revelou a extensão da interferência da indústria. A investigação detalhou como as empresas utilizam estratégias legais para postergar ou enfraquecer a implementação de regulamentações destinadas a proteger a saúde da população.
Estratégias de obstrução e seus impactos
A investigação transnacional identificou que, entre 2010 e 2025, foram movidas pelo menos 239 ações judiciais contra órgãos governamentais em países como México, Colômbia, Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e Índia. Embora a maioria dessas ações (quase 80%) tenha resultado em derrotas para a indústria, elas cumpriram o propósito de enfraquecer os órgãos reguladores e atrasar a efetivação de regulamentações já aprovadas.
Um exemplo notável dessa estratégia é o caso brasileiro, onde a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 24 da Anvisa, que visava definir parâmetros para a publicidade de alimentos, permanece sem efeitos práticos há 16 anos. Múltiplos questionamentos na Justiça impediram sua implementação. Tedros Adhanom Ghebreyesus destacou que esses atrasos geram bilhões em despesas de saúde e custos legais, além de criar um 'resfriamento regulatório' que desestimula governos a adotar proteções essenciais. Ele comparou a situação a um 'padrão familiar de interferência da indústria: semear dúvidas e obstruir a regulamentação'.
Recomendações da OMS e o cenário global da obesidade
O diretor-geral da OMS enfatiza a eficácia de medidas como a imposição de rotulagens nutricionais claras em embalagens, restrições à publicidade de alimentos não saudáveis e a aplicação de impostos sobre bebidas açucaradas. Ele lamenta, contudo, que o avanço dessas políticas seja mais significativo em países desenvolvidos de maior renda. Essa disparidade reflete uma inequidade global, não apenas no aumento do ônus das doenças, mas também na capacidade dos governos de responder, uma situação agravada pelos litígios que atrasam ações onde a necessidade é mais premente.


