Especialistas refutam narrativa de 'onda anti-Argentina' propagada por Javier Milei
A declaração do presidente Javier Milei sobre uma suposta 'onda anti-Argentina' é vista por economistas e sociólogos como uma estratégia política. Eles apontam que a narrativa, embora amplificada por eventos como a Copa do Mundo, tem raízes históricas na imagem de superioridade que a Argentina construiu para si mesma há mais de um século.

Especialistas refutam a afirmação do presidente argentino Javier Milei de que existe uma 'onda anti-Argentina' global, classificando-a como uma narrativa conveniente para desviar a atenção de problemas internos.
Analistas veem a afirmação do presidente argentino como uma estratégia para desviar o foco de problemas internos, com raízes históricas na percepção de superioridade do país.
A narrativa de Milei e a visão dos especialistas
O presidente argentino Javier Milei tem empregado a frase 'Vamos a hacer grande a la Argentina otra vez', ecoando discursos de líderes como Donald Trump. Essa declaração se alinha à sua afirmação de que há uma ofensiva global contra a Argentina, visando conter seu progresso. Milei utiliza essa retórica para reforçar um discurso de 'nós contra eles', sugerindo que o país é alvo de uma conspiração externa.
No entanto, especialistas como o economista Fabio Giambiagi e o sociólogo Rogério Baptistini refutam essa ideia. Eles consideram a noção de uma 'onda anti-Argentina' como 'ridícula' e uma 'ficção', ou uma 'narrativa conveniente'. Baptistini sugere que essa é uma tática clássica da extrema-direita para desviar a atenção dos resultados sociais do governo, criando inimigos externos e capitalizando o ressentimento popular.
O impacto da Copa do Mundo na percepção
A Copa do Mundo de 2026, na qual a Argentina foi vice-campeã, é citada como um evento que, paradoxalmente, impulsionou essa narrativa. Giambiagi reconhece que houve uma reação compreensível a atitudes antiesportivas de jogadores argentinos após a final, como dar as costas à comemoração espanhola. Esse comportamento, segundo ele, 'jogou no lixo' o esforço de construção de simpatia que a seleção havia conquistado durante o torneio.
Após o campeonato, teorias conspiratórias se proliferaram, fortalecendo o discurso de isolamento argentino. Teses como a de que a FIFA teria favorecido o time de Messi ou, inversamente, que a seleção argentina teria 'entregado' o jogo, circularam amplamente. Baptistini observa que o estilo de jogo argentino, focado na 'catimba' e na irritação do adversário, também gerou críticas e amplificou o discurso negativo nas mídias, embora isso não configure uma 'onda anti-Argentina' generalizada.
Raízes históricas da autoimagem argentina
A base para a narrativa de uma suposta superioridade argentina remonta a mais de um século. Após a Guerra do Paraguai, a Argentina consolidou-se como um Estado independente e experimentou um grande sucesso econômico, impulsionado pela demanda global por commodities. Nas décadas seguintes, o país se industrializou, e no início do século 20, seu PIB crescia a taxas elevadas, com uma renda per capita superior à de países europeus como Itália e Espanha.


